BANCADA DIRECTA: 2013

terça-feira, 31 de dezembro de 2013



Preste atenção ao que está fazendo, porque o ontem já lhe fugiu das mãos, o amanhã não chegou e não sabe o que o espera.

Não perca tempo em olhar para trás para ver o que já fez, mas olhe para frente e caminhe confiante e alegre e veja que tem muito por fazer, aprender e construir, porque não existe um caminho para a Felicidade.

A felicidade é o caminho que se constrói a cada momento!

O mesmo para vós, peço para mim na proporção que cada um pode obter, são os meus sinceros desejos! 


Como não poderia deixar de assinalar um Abraço especial para o meu Caro amigo Adriano Ribeiro pela sua extraordinária obra ao serviço desta página, que muito orgulha todos que nela participam deste o seu inicio! A todos os colaboradores também o meu Obrigado!


Saude e muita Alegria para todos!

Desejo a todos vós um Feliz e Próspero Ano 2014!

Cumprimentos

Pedro Sousa

Bancada Directa deseja aos seus carissimos leitores que tenham um Ano Novo cheio de prosperidades.

Uma pequena pausa
Voltamos já no Novo Ano
Vamos andar por aí, por terras do nosso Ribatejo na borda d'água
São Vicente do Paúl e depois Marinhais, do outro lado do rio.
São os laços familiares a chamar-nos!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Neste tempo de Natal as lágrimas alagam os olhos dos administradores do blogue Bancada Directa. O detective Tempicos cansou-se de atacar e agora anda radiante numa qualquer ilha das Maldivas numa "ménage a trois" de fazer inveja a qualquer um. A felicidade estende-se à Fatinha e à Arlete......s....


Neste tempo de alvorecer do Ano Novo da graça de 2014 as  lágrimas alagam os olhos dos administradores do blogue Bancada Directa. Tempicos: "get out"!.....
O detective Tempicos cansou-se de atacar e agora anda radiante numa qualquer ilha das Maldivas numa "ménage a trois" de fazer inveja a qualquer um. 
A felicidade estende-se à Fatinha e à Arlete......
Ruca da Bicha. Eduardo, Salvadorinho, Aurélio e Duarte que se lixem! Ficam sossegadinhos, bem aconchegadinhos com a Natália para o que der e vier (por acréscimo) se ressuscitarem....

TEMPICOS E OS PASTELINHOS DE NATA
8º Episódio, último e derradeiro 

Tempicos começava a perder a paciência. A morte em formato de assassinato do Pedro Manuel, um rapaz que prometia, a tentativa de assassinato de Eduardo que apesar de lhe ter roubado a dona da pensão, foi mais uma facada na classe operária. 

A lança que o chanfrado do Salvadorinho lhe atirou e lhe perfurou a omoplata acabou por não lhe causar grande mossa… Ultimamente o fracasso das suas performances atribuídos exclusivamente aos comprimidos azuis falsificados, e ainda as esquivas de Arlete que muito prometeu mas que sempre apresentou um grande jogo de cintura. 

As investigações que efetuava na Pensão Kumbala tinham chegado a um “cul de sac” que é como quem diz em águas de bacalhau. Mas um homem da fimbra de Tempicos não desiste e investe sempre contra tempestades e chuva miudinha. Desistir “ jamais “ - em francês ( jámé), para entendimento da nossa colónia de leitores em Paris. Arrostava ainda com o desgosto de ter sido preterido no confronto de garanhões que levou a Fatinha a preferir o Eduardo. 

Para Tempicos, homem prático e arguto a coisa tinha que ser resolvida à sua maneira: à bruta! Lera muito livros de Agatha Christie e tinha o maior respeito pelos métodos de investigação de Hercule Poirot. Foi assim que planejou a cena: reuniria toda a gente na sala de jantar da pensão Kumbala. Faria uma inquirição breve directa e eficaz, utilizando as “células cinzentas” que lhe sobravam no cérebro, apesar do peso dos anos. 

Uma encenação à maneira. Combinara a estratégia com a sua aliada Fatinha (de novo do seu lado) com quem fizera as pazes uma vez afastados os odores do canalizador Eduardo das narinas sensíveis da sua antiga amásia. Tempicos perdoou-a. Entre a cozinha e a sala, apanhou-a, empurrou-a contra a porta e rodeou-lhe a cintura selando-a freneticamente com um beijo repenicado que deixaria Bogart a roer as unhas de inveja, se acaso fosse vivo. 
Claro que foi do Tempicos a ideia de encharcar de pomada de beladona os pastelinhos de nata. A sorte dos nossos heróis de meia tigela é que a beladona não era desta qualidade. Venenosa quanto baste.

Fatinha baixou a guarda. Depois, Tempicos partiu para a outra. A cabritinha Arlete. Contou-lhe um segredo e ela embarcou no jogo. Do que lhe disse nada transpirou. Só ela arfava ainda com os zunzuns da proposta. Tempicos, satisfeito disse para consigo: “isto – meu amigo – é como andar de bicicleta. Quem aprende nunca esquece! “ Eram “cinco de la tarde “ na pensão Kumbala e o pessoal estava já reunido na sala de jantar. 

Sentados e alinhadinhos estavam todos os suspeitos: Ruca-da-Bica, Duarte, o renascido e retemperado Eduardo com o seu inseparável odor a ferro-velho, Salvadorinho, o Rei do Quizomba e a sua amásia Natália, o Dr. Aurélio - o sete mais dois, para os íntimos, o Novena, de botinas e sotaina. Tempicos, tomou a palavra: “Meus caros, lastimo informar mas temos entre nós o criminoso!” - Ganda avaria! – adiantou o Salvadorinho. 

Tempicos fingiu que não ouviu e continuou: “- Enquanto tomamos um cafezinho e hoje excepcionalmente acompanhados por uma dúzia de pastelinhos de nata, oferta da dona Fatinha, que ainda estão quentinhos, pois acabei de os trazer da Fábrica dos ditos em Belém, ali ao lado do Cavaco. São os autênticos. A menina Arlete poderá já servi-los. Ficam muito bem com o cafezinho.” Arlete entra em cena com uma bandeja repleta de pastelinhos, canela e cafezinhos, deixando-a no centro da mesa. Toda a gente avançou ao ataque e num ápice os pastelinhos voaram e o cafezinho correu pelas gargantas dos suspeitos. 
À primeira trincadela viu-se logo, melhor, saboreou-se o travo da beladona

Só a Dona Fatinha, Tempicos e Arlete não comeram os pastelinhos. Ninguém reparou nisso e deviam tê-lo feito… Nem cinco minutos se passaram e já o Dr. Aurélio afirmava que o pastel que comera tinha um leve sabor a beladona. Novena que fora em tempos padre persignou-se e bocejou. Natália, desconfiada perguntou se a beladona era bom para o estômago. 

Ao que Aurélio – sempre com o seu afinado humor negro disse que lá bem não devia fazer assim muito. - Midríase – é o que o Ruca está a ter – parece um goraz de olho gazeado! Afirmou o médico com um sorriso aparvalhado. Eduardo começou a transpirar e o ar ficou irrespirável. Arlete e Fatinha foram para a cozinha, tratar da loiça, ou fingir que. Entretanto Ruca-da-Bica levantou-se e logo de seguida caiu redondo com a cabeça dentro da bandeja agora vazia de pastelinhos. 


Natália atirou-se ao pescoço de Salvadorinho a beijá-lo repetidamente na face ao mesmo tempo que este continuava o solilóquio: - “ maconha, maconha, maconha…” O Dr. Aurélio foi o último a cair redondo. E quando o fez ainda conseguiu soletrar: “BE-LA-DO-NA.” Tempicos levantou-se e risonho chamou as duas amigas, Arlete e Fatinha e mostrou- lhes os bilhetes de avião para as Ilhas Maldivas.
 Vamos, embora que o avião não espera! A polícia quando chegar vai dar como veredicto o suicídio colectivo, tão em moda ultimamente. Nós vamos para o bem-bom, os três. Nunca experimentei o “menagem-à-trois” uma recomendação insistente nos livros do meu amigo Marquês de Sade. 

Alguma vez teria que ser. 

FIM

O autor deste episódio e da coordenação da novela, não nas Maldivas, mas sim no seu recanto algarvio

domingo, 29 de dezembro de 2013

Nem tudo o que luz é ouro! Podem aplicar as sanções que entenderem e justas à Guiné Bissau no caso do embarque dos 74 sirios com passaportes falsos. Mas primeiro paguem o que devem……


Nem tudo o que luz é ouro! Podem aplicar as sanções que entenderem e justas à Guiné Bissau no caso do embarque dos 74 sírios com passaportes falsos. Mas primeiro paguem o que devem…… 

"TAP tem uma dívida à Guiné-Bissau de 6 milhões de dólares" 

Porta-voz do Governo de transição da Guiné Bissau garante que há "boa vontade" em dialogar com a TAP sobre "as dívidas às finanças". 

Transportadora não comenta. 

Claro que estamos a falar sem certezas, mas tudo indica que a dívida existe por parte da transportadora. Então deixem-se de arrogâncias e vamos lá a dialogar sem jactancia de pretensamente sermos uma raça superior. 
Não há qualquer dúvida que as autoridades que controlam transitoriamente a Guiné Bissau se portaram muito mal no caso de forçarem o embarque no avião da TAP dos sirios. Mas também não temos dúvidas que a TAP tem de cumprir as suas obrigações financeiras especialmente com os países pequenos de expressão portuguesa.

A transportadora aérea portuguesa é acusada por Fernando Vaz de não pagar o Imposto Geral sobre Vendas (equivalente ao IVA em Portugal) e a contribuição industrial na Guiné-Bissau desde 2004 até hoje. "Já notificámos a TAP várias vezes", afiança. 

A TAP recusa-se a fazer comentários.

sábado, 28 de dezembro de 2013

O Tribunal Constitucional mandou o Governo mais uma vez “abaixo”! A chamada, eivada de irresponsabilidades, “Convergência de Pensões” para mim não foi surpresa nenhuma ter o chumbo unânime dos juízes. Para já Marques Mendes dá o mote para Passos Coelho se orientar: primeiro aumenta-se o IVA e depois estudar-se-à o “problema” das pensões. Reformados da CGA e dos privados…..

O Tribunal Constitucional mandou o Governo mais uma vez “abaixo”! 
A chamada, eivada de irresponsabilidades, “Convergência de Pensões” para mim não foi surpresa nenhuma ter o o chumbo unânime dos juízes. Para já Marques Mendes dá o mote para Passos Coelho se orientar: primeiro aumenta-se o IVA e depois estudar-se-à o “problema” das pensões. Reformados da CGA e dos privados….. 

O intitulado governo do País, tendo descoberto que o sistema de pensões do sector público é mais favorável que o do sector privado ( o que não é nada verdade para quem trabalhou ao longo da sua vida no Estado), resolveu fazer convergir os dois sistemas. 

Para tal, descobriu e aplicou uma lei que baixava as pensões do sector público para o nível das do sector privado. Tal aborto jurídico era flagrantemente inconstitucional, e assim o declarou o Tribunal Constitucional, por unanimidade. 
A unanimidade não é uma palavra vã. Ela existe mesmo no Tribunal Constitucional

Quando mais novo fui trabalhar para uma empresa do ramo automóvel o meu vencimento acordado era muito superior ao daqueles que já trabalhavam, na empresa há muitos anos e aceitavam o facto como cachorros domésticos obedientes. 

E foi o bom e o bonito. Todos se rebelaram porque não admitiam que houvesse alguém que ganhasse mais do que eles. Fui chamado ao Serviço do Pessoal e disseram-me para eu não me importar. No entanto contactei os colegas e expliquei-lhes que eles deveriam era reclamar para ser aumentados e não para eu ser cortado no vencimento. Assim é que era uma atitude justa e equilibrada. 

Concretamente os colegas nada fizeram nem mudaram a sua atitude, mas o Chefe do Pessoal (chamava-se Cecilio) levou o assunto ao “patrão” e o aumento por mim preconizado foi mesmo bem aceite e ocorreu mesmo. Tive lá sempre um bom ambiente e tive oportunidade de desenvolver os meus estudos académicos. Quando entrei para a Função Publica já tinha uma experiência de comando muito aceitável. 

Por isso medito no meu exemplo e concluo que se realmente o "governo" está preocupado com a desigualdade dos sistemas, tem uma solução democrática, lógica, justa e que não ofende a Constituição: elevar as pensões do sector privado para o nível das do público. 
Mas isso nem lhe passou pela cabeça; tomar uma medida que beneficie alguém é coisa que o "governo" nunca fez nem fará. Isto é prova cabal de que os senhores do Poder não estão minimamente preocupados com a desigualdade. O seu único objectivo era o de reduzir as pensões do sector público. A tão propalada "desigualdade" era apenas um pretexto e uma falsa justificação. 

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Passou o Natal e o Detective Tempicos continua a atacar com a novela colectiva “Tempicos e os pastelinhos de nata” . Hoje publica-se o 7º episódio da autoria do Inspector Boavida. Salvadorinho, Salvadorinho! Deixa-te de tretas a cai na real: a Natália é do Povo e é um pássaro livre!


Passou o Natal e o Detective Tempicos continua a atacar com a novela colectiva “Tempicos e os pastelinhos e nata” . 
Hoje publica-se o 7º episódio da autoria do Inspector Boavida. 
Salvadorinho, Salvadorinho! 
Deixa-te de tretas a cai na real: a Natália é do Povo e é um pássaro livre! 

UM DRAMA NA PENSÃO KUBALA 7º. episódio: 

"A MALDIÇÃO DA LANÇA". Autor . Inspector Boavida. Porto


Na acanhada sala de pequenos-almoços da Pensão Kubala, todas as conversas giravam em torno do golpe de sorte que salvou a vida do canalizador Eduardo. Apesar de grato à sua salvadora Arlete, o canalizador agia com ares de homem possuidor de superpoderes. 

Quem o ouvisse, fanfarronando, diria que as roupas que trazia vestidas no dia-a-dia da sua triste e frustrante vidinha de desentupidor de sanitas de muito uso e pouca limpeza o tornavam imunes a tiros ou facadas, viessem de onde viessem. 

Eduardo garante até que era com aquele mesmo tipo de tecido que se faziam as roupas que envergava nos seus tempos de piloto de fórmula 1. E lá veio outra vez a história tantas vezes repetida de um Grande Prémio em 1970, justamente o ano em que a Ferrari conseguiu finalmente desenvolver um equipamento capaz de rivalizar com as outras marcas, onde ele teria disputado o primeiro lugar do pódio com o austríaco Jochen Rindt e o brasileiro Emerson Fittipaldi, que à época integravam a escuderia da Lotus. Mas de repente toda a gente deixou de ouvir o canalizador. Natália, a imponente, a grandiosa, a magnífica, que nunca por nunca ser parara por ali, espreitou para dentro da sala, olhou em volta e largou um ai profundíssimo, num misto de angústia e desespero. 
The F60 is the fifty fifth single-seater built by Ferrari specifically to compete in the Formula 1 World Championship. The name of the car was chosen to celebrate the Scuderia’s participation in all 60 editions of the Formula 1 World Championship since 1950 to date. The project, which goes by the internal code name of 660, represents the Scuderia’s ....  
Eduardo orgulhava-se de ter pertencido à “Scuderia” da Ferrari. Nesta foto de 2009 Eduardo não aparece na foto porque  atrasou-se a comer uma sandocha no bar do autódromo

Os mais diversos pensamentos passaram em galope pela cabeça dos hóspedes presentes. Para Novena, estava decerto por cair um santo do altar. Para o intelectual Duarte, aquela aparição merecia um soneto em louvor da beleza e do amor. Para o doutor Aurélio, a namorada do Salvadorinho devia estar a precisar de um exame minucioso com direito a apalpação. Para o Ruca-da-Bica, a madame devia querer apanhar uma boleia do seu táxi. 

E para o Eduardo, ela devia era ter algum cano entupido e andava em busca dos seus préstimos. Mas assim como Natália aparecera, vinda do seu mundo inatingível, do mesmo modo sumira rumo à recepção sem dizer ao que ia. As mulheres responsáveis pela gestão, organização e execução dos serviços da Pensão Kubala ficaram intrigadas com o inesperado e súbito interesse da sempre distante e pouco sociável Natália em saber do paradeiro de Tempicos.

Arlete era um monumento de graciosidade e Tempicos era o grande amor da sua vida. Andava sempre a trautear o tema do Bonga: "Tempicos vem comigo p´ra Angola"

Ela que sempre ignorou o velho e aposentado Inspector mostrava agora grande urgência em chegar à sua fala. Arlete, aparentemente enciumada pela tentativa de aproximação da boazona da avenida ao homem que tem como seu até à eternidade, não teve como evitar um desabafo de ressentimento: “Se tem urgência, ligue para o 112”. Fátinha apressou-se a colocar água na fervura: “O garanhão do quarto 13 está nos seus aposentos”. Tempicos estremeceu dos pés à cabeça quando viu Natália entrar no seu quarto, sem se fazer anunciar. 

Arlete tinha deixado a porta encostada com a pressa de sair, naquela manhã, e ele ainda estava de ceroulas vestidas. Com a atrapalhação, Tempicos hesitou entre despir as ceroulas ou vestir umas calças por cima. Enquanto isso, Natália aproximou-se decidida e meio coquete. E a pouco mais de meio metro, sussurrou-lhe num suspiro profundo: 
-“Preciso muito de si, inspector”. A resposta não se fez esperar: 
-“É para já. Deite-se!” Perante o olhar incrédulo e desconfortável de Natália, Tempicos corrigiu atabalhoadamente: 
-“Quero dizer, ajoelhe-se. Perdão, sente-se, sente-se”. Sentada aos pés da cama Natália disse:
-“O meu Salvadorinho não anda nada bem”. Não havia qualquer novidade naquela afirmação. 

 É para já, minha senhora! Deite-se!, Melhor sente-se" Ou antes ajoelhe-se. Os delirios de Tempicos

Desde a morte de Pedro Manuel que o bailarino evidenciava algumas alterações comportamentais. Até a sua saudação da cada manhã sofrera uma grande mudança. Em vez de um claro “bom dia”, passou a ouvir-se um grunhido ininteligível acompanhado de uns estranhos salamaleques. “A primeira vez que se expressou dessa forma estávamos na cama” – fez saber Natália. “Ainda pensei que ele atingira finalmente o clímax, um momento supremo de prazer, mas não. 

Estava a pedir um copo de água… em dialeto cunhaguês, disse-me ele”. Não havia prova mais concludente de que Salvadorinho passava por um momento terrível. Já não era nada bom sinal a sua súbita fixação pelo bronzeado de solário desde que acabara o verão ou as horas perdidas no cabeleireiro afro a encarapinhar o cabelo, mas agora pedir um copo de água, e ainda por cima em dialecto africano quando se está no bem-bom, é demais. 

Alguma coisa teria dado volta à cabeça do bailarino, mas desconhecia-se o quê. “Ele agora até quer mudar radicalmente o seu repertório” – desvendou Natália. “Quer deixar a valsa, o tango e o swing para se dedicar exclusivamente às danças africanas. Ele até já exigiu aos agentes e empresários com quem trabalha que passem a anunciá-lo como… Dorinho, O Rei do Quizomba”. 
O bailarino está muito pior do que se pensava. “Trata-se de alguma maldição” – arriscou Tempicos. Nisto ouviu-se um estrondo e Natália enroscou-se de medo em volta do pescoço do inspetor. 

A porta cedera à pressão do magote de gente que procurava escutar o que se passava no interior do quarto, fazendo com que esta caísse com força no chão. Na frente dos coscuvilheiros estava a jovem e desinibida empregada Arlete, que não se conteve: “Sua sonsa, sua vaca, sua…”. 

Novena, de joelhos no chão, arrastou-se até ela, impedindo-a de se levantar e chegar a vias de facto com a suposta rival, segurando-a pela coxa da perna esquerda. E teria ficado assim até sabe Deus quando, se este não tivesse escolhido outro caminho para este episódio da nossa história. Eduardo pôs-se de pé, num salto tão lesto, tão enérgico e destemido que era bem capaz de fazer inveja aos mais ágeis e bem treinados ginastas do leste. 

E antes que Ruca-da-Bica, Fátinha, Duarte e Aurélio, espalhados pelo chão em volta da empregada da Pensão Kubala e do ex-seminarista, tivessem tempo de se erguerem, uma lança voou sobre as suas desmioladas cabeças e atingiu em cheio o peito do canalizador.
-“Conha! Conha-cum-conha. Makamaka-conha!!!” – gritou Salvadorinho da soleira da porta. 
"Conha! Conha-cum.conha. Makamaka-conha!!!" Salvadorinho exagerava: o Rei do Kisomba até nem era desengraçado.

 De dedo em riste em direcção do Rei do Kizomba, de olhos esbugalhados e antes de cair redondo no chão por cima da molhada de gente por ali espojada, Eduardo ainda gritou com os pulmões que lhe restavam: “É a maldição da Lança! É a maldição da Lança!” 

18 de dezembro de 2013
Inspector Boavida

O autor deste episódio



 

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje é lembrada Ercilia Costa

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
Hoje é lembrada Ercilia Costa

 “No Palco da Saudade” 
Texto inédito e integral de Salvador Santos 

ERCÍLIA  COSTA
Ela foi a Santa do Fado, designação que se deve ao jeito como colocava as mãos ao cantar, junto ao peito, em forma de oração. Juntou ao seu nome de baptismo o primeiro nome da terra onde nasceu, a vila da Costa da Caparica, e foi assim que se apresentou desde sempre como fadista, apesar de ter deixado aquela terra da margem sul de Lisboa muito cedo. Com apenas 3 anos, a família mudou-se para o velho bairro lisboeta de Alcântara e foi aí que ela verdadeiramente nasceu para o fado. 

Exerceu primeiro a profissão de ajudante de costureira para ajudar na subsistência familiar, mas depressa trocou aquele ofício pelas cantigas, influenciada pela opinião dos vizinhos que a ouviam cantar quase a todas as horas, de manhã à noite, para gáudio de todos eles. Ainda adolescente, Ercília Costa apresentou-se numa audição, em resposta a um anúncio, para integrar o elenco de um espectáculo a realizar no Teatro Nacional São Carlos, tendo sido uma das concorrentes seleccionadas. Porém, o projecto acabaria por ser cancelado. Mas a qualidade da sua interpretação ficou na memória do actor Eugénio Salvador, que lhe fez pouco tempo depois um convite para ingressar na companhia que preparava para o Teatro Maria Vitória. 

E foi assim que ela começou o percurso artístico como profissional no teatro de revista, ao lado de grandes vedetas como Luísa Satanela ou Beatriz Costa, rubricando trabalhos de considerável relevo como actriz, mas foi como intérprete de fado que registou os seus maiores êxitos e consequente popularidade. 
Ao longo de toda a década de 1930, Ercília Costa fez parte de um reduzido grupo de fadistas convidadas a apresentar-se regularmente no teatro de revista, criando assim um espaço próprio de apresentação dos profissionais do fado naquele género teatral, que foi depois seguido por grandes nomes como Berta Cardoso ou Hermínia Silva. Destacam-se da sua ligação ao teatro de revista, a peça de estreia, “O Canto da Cigarra”, onde criou o tema “Fado Lisboa”, e os espectáculos “Feira da Luz”, “Fogo de Vista”, “Fim do Mundo” e “A Boca do Inferno”. 

Simultaneamente, o cinema entrava na sua vida, com a participação nos filmes “Amor de Mãe”, “Amargura” e “Lisboa 1938”, sendo que este último contribuiu decisivamente para a sua projecção internacional. Além dos Estados Unidos, onde se deslocou inúmeras vezes, Ercília Costa actuou no Brasil em companhias de teatro portuguesas e brasileiras, tendo cantado igualmente no Uruguai, Argentina, Espanha e França sempre com grande êxito. 
Na sua primeira ida ao Brasil fazia parte da companhia de Vasco Santana e Mirita Casimiro, mas o seu sucesso foi de tal forma estrondoso que acabou por permanecer uma longa temporada nesse país. Pouco tempo depois realizou dois espectáculos na Comédie Française, em Paris, e actuou no Pavilhão Português da Feira Internacional de Nova Iorque. 

A esta atuação seguiu-se uma longa digressão com a duração de dez meses por várias cidades dos Estados Unidos, obtendo um êxito assinalável em Los Angeles e em Hollywood. Ercília Costa actuou pela segunda vez em Hollywood em 1939, o mesmo ano da estreia de outra grande estrela nascida em terras lusas, Carmen Miranda, tendo feito amizade com Bing Crosby e Gary Grant, para quem actuou. 

A fadista foi, aliás, a primeira artista portuguesa a realizar digressões sistemáticas no espaço internacional, a primeira a actuar numa rádio de língua estrangeira e a gravar aquele que pode ser hoje considerado como o primeiro videoclip de um artista nacional. Em 1945, na sua terceira digressão ao Brasil, que durou mais de quinze meses, realizou espectáculos nos mais prestigiados recintos do circuito musical brasileiro, tendo ainda integrado o luxuoso elenco da companhia de teatro de revista liderada pela vedeta carioca Alda Garrido. 
As primeiras gravações discográficas de Ercília Costa datam de 1929, altura em que a fadista se deslocou a Madrid para gravar para a etiqueta Odeon, acompanhada à guitarra portuguesa pelo virtuoso Armandinho e à viola pelo não menos exímio e famoso instrumentista Georgino de Sousa. Posteriormente viu alguns dos seus trabalhos serem editados no Brasil e nos Estados Unidos, para além de inúmeras gravações registadas em Portugal. 

O seu último trabalho discográfico, o vinil “Museu do Fado”, data de 1972, onde se podem ouvir alguns dos seus temas mais populares, como “Amor de Mãe”, “Fado Ercília”, “Fado da Amargura”, ou ainda o “Fado da Mocidade” e “O Filho Ceguinho”, este último vulgarizado no meio fadista como o “Menor da Ercília”. Ercília Costa, que protagonizou com Alfredo Marceneiro, na década de 1930, o agrupamento Guitarra de Portugal, com o qual percorreu o país de norte a sul, é hoje pouco recordada possivelmente fruto da falta de reedição em formato CD das muitas gravações que fez. 
Neste formato encontra-se apenas disponível uma recolha das suas gravações com Armandinho, editada em 1995 na colecção “Arquivos do Fado” da Editora Tradisom, onde é possível reconhecer o seu enormíssimo talento e imaginar os caminhos que podia ter percorrido se não tivesse resolvido dedicar-se inteiramente ao seu casamento, em 1954, retirando-se totalmente da vida artística a partir daí e sem despedidas. 

Para desgosto dos seus admiradores, Ercília Costa não fez mais espectáculos ao vivo até à data do seu falecimento em 1985. Ficou pouco mais do que a saudade! 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Dezembro. 21

domingo, 22 de dezembro de 2013

E porque são tempos de Natal e estarmos tão longe da nossa casa para a reunião familiar da quadra natalicia, vamos fazer uma pausa até depois do nascimento de Jesus. Desejamos aos nossos caros amigos leitores que tenham Santo Natal junto das suas familias.

Regressamos na próxima quinta-feira com a rubrica "No Palco da Saudade" do nosso Salvador Santos

Estamos em tempos de Natal. Esqueçamo-nos por uns dias dos malandrões que apoquentam a nossa vida e convivamos com o Folclore de São Torcato. Guimarães

sábado, 21 de dezembro de 2013

Eles bem disseram que aceitavam a decisão do TC. Mas não ficaram convencidos da unanimidade do veredicto e agora querem ler muito bem!...Para aprenderem a ler têm o livro da 1ª classe

Redacção: 
O que é a Constituição?

Resposta daqueles que nos governam e daqueles que os apoiam:
-Mas isso existe?

" An apple a day, keeps the doctor away ", que é como quem diz : A ingestão diária de maçã reduz a mortalidade vascular. São os "Temas de Medicina no Bancada Directa nestes tempos de Natal. E desejamos que o médico amigo deste blogue tenha um Santo Natal.

" An apple a day keeps the doctor away ", que é como quem diz 
A ingestão diária de maçã reduz a mortalidade vascular. 
São os "Temas de Medicina no Bancada Directa nestes tempos de Natal. 
E que o nosso médico amigo deste blogue tenha um Santo Natal. 

O provérbio inglês “comer um maçã por dia mantem os médicos afastados”  continua a poder ser aplicado actualmente, uma vez que a ingestão  diária desta fruta iguala praticamente os efeitos das estatinas na  prevenção de morte vasculares, defende um estudo publicado no “British  Medical Journal”. 
Através da utilização de modelos matemáticos, os investigadores da  Universidade de Oxford, no Reino Unido, decidiram avaliar como este  provérbio com cerca de 150 anos se poderia comparar com a toma de  estatinas na população britânica. Neste estudo foi analisado o efeito  da toma diária de estatinas em indivíduos que não tomavam este  fármaco, e da ingestão de uma maçã nas causas mais comuns da  mortalidade vascular. 

Todos os participantes tinham 50 ou mais anos de  idade.  O estudo apurou que se 17,6 milhões de adultos tomassem estatinas  diariamente, haveria uma redução anual de 9.400 mortes vasculares,  enquanto se 70% da população total do Reino Unido (22 milhões), com 50  anos de idade, ingerisse diariamente uma maçã seriam evitadas 8.500  mortes vasculares. 

Contudo, os investigadores referem que a prescrição de estatinas para  os indivíduos com mais de 50 anos significaria um aumento de cerca de  1.000 novos acasos adicionais de doença muscular e mais de 10.000  diagnósticos adicionais de diabetes.  O modelo matemático demonstrou ainda uma redução adicional de 3% no  número de mortes vasculares, se fosse prescrita a toma diária de  estatinas, ou de maçãs, para os indivíduos com mais de 30 anos. 
Contudo, o número de efeitos secundários previstos duplicaria. “Este estudo mostra que pequenas alterações na dieta, assim como o  aumento da toma de estatinas poderia reduzir significativamente a  mortalidade vascular no Reino Unido”, revelaram em comunicado de  imprensa os investigadores.  

Os autores do estudo concluíram ainda que estes resultados enfatizam a  necessidade de aumentar o consumo de fármacos indicados para a  prevenção das doenças cardiovasculares, assim como a necessidade de  preservar as políticas de saúde de destinadas a melhorar qualidade  nutricional das dietas

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Era uma vez alguém que dizia que iria aceitar as decisões do TC. Ora aí está a confirmação. Francamente.

Um mau perdedor.
Comme d´habitude!

Rosalino, Rosalino! Ao menos podias esperar mais uns dias para saboreares esta derrota implacável com o chumbo do TC à “convergência” que vocês queriam. Chumbo unânime do TC à convergência de pensões Tribunal Constitucional considera que o diploma viola o princípio da confiança

 Rosalino, Rosalino! 
Ao menos podias esperar mais uns dias para saboreares esta derrota implacável com o chumbo do TC à “convergência” que vocês queriam. 

Chumbo unânime do TC à convergência de pensões 
Tribunal Constitucional considera que o diploma viola o princípio da confiança 

O Tribunal Constitucional chumbou por unanimidade o diploma da convergência das pensões, com base na violação do princípio da confiança, "decorrente dos princípios do Estado de Direito democrático consagrado no art 2º da Constituição", segundo anunciou hoje o juiz relator do acordão. 

O TC dá assim inteira razão ao pedido de fiscalização preventiva apresentado pelo Presidente da República, que alegava, entre outros argumentos, a violação daquele princípio. A lei previa o corte de 10% do valor ilíquido das pensões e o seu valor global (cerca de 728 milhões de euros) consta do orçamento de Estado para 2014. 
Sabíamos que Rosalino era um "pau mandado" pelo trio Passos, Albuquerque e Portas. E que protagonizava uma luta inglória cuja morte estava anunciada. As feridas podem sarar, mas as marcas ficam para sempre.

Em declarações aos jornalistas, o presidente do Tribunal, Joaquim Sousa Ribeiro considerou que a Constituição não consagra o direito ao montante da pensão, mas apenas o direito à pensão. Segundo o presidente, tal direito, "uma vez consagrado, ganha uma certa resistência", pelo que qualquer legislação que altere esse valor tem de ser "justificado", designadamente em face dos princípios constitucionais. Sousa Ribeiro também adiantou que o argumento presidencial de que este diploma se tratava de um imposto não foi acompanhado pelo tribunal. 

Segundo o juiz-presidente, o TC seguiu a linha que valoriza as expectativas dos reformados, considerando-as "reforçadas", desde logo por se estar em face de direitos já constituídas. O tribunal teve em conta "sujeitos que fizeram opções de vida, contando com o caráter certo do montante das pensões, tendo muitos deles antecipado essas reformas". 

Para Sousa Ribeiro, o TC fez a ponderação em relação à relevância dos interesses públicos apontados de sustentabilidade, da convergência, da igualdade proporcional entre os dois sistemas. "Esses interesses são legítimos e noutro contexto poderiam justificar uma redução as pensões", afirmou. O juiz referiu ainda que o Tribunal nunca afirmou no acórdão a intangibilidade do montante das pensões.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O Detective Tempicos volta a atacar com a novela colectiva “Tempicos e os pastelinhos de nata”. Hoje é o 6º episódio da autoria de “Arnes”, nortenha da Trofa. Eduardo, Eduardo! Toma cuidado! A Arlete nem te quer defender, não gosta de ti e nem quer o teu amor! Só pretende o teu Ferrari “Testa Rosso”!.

O Detective Tempicos volta a atacar com a novela colectiva “Tempicos e os pastelinhos de nata”. Hoje é o 6º episódio da autoria de “Arnes”, uma miuda nortenha da Trofa. 

Eduardo, Eduardo! Toma cuidado! 
A Arlete nem te quer defender, não gosta de ti e nem quer o teu amor! 
Só pretende o teu Ferrari “Testa Rosso”!.

6º Episódio 
“Um drama na pensão Kumbala” 
Autor: Arnes. Trofa 

 E tudo volta ao inicio. 

Arlete desce as escadas desenfreada, ainda a conferir o interior da carteira e pede a Ruca da Bica que lhe faça um frete urgente. Ruca que andava há muito a desejar ensinar-lhe a conga, seguiu-a escada abaixo e chegado ao táxi, abre-lhe a porta da frente.

Gesto que Arlete ignorou e entrou na parte traseira do carro. Ruca não conseguiu esconder a sua frustração, já fazia contas a umas escorregadelas de mãos no meter das mudanças e mais uma vez ia ficar-se pelo querer. Por este andar nunca mais meteria a dentadura naquele “filé” tão tenrinho. 
-Para o S. José, rápido- sussurrou Arlete ao ouvido do Ruca. Ruca até sentiu o rosto corar, tal foi a fúria que o assaltou, mas disfarçou e arrancou. Pensava para com os seus botões, que aquele “Bijou” iria ver o que se passava com o canalizador de meia tigela.

Uma voz melodiosa e suave interrompeu os seus pensamentos. 
-Ruca sabes se o Eduardo corre risco de vida? 
-Muito mal não devia estar, pois veio pelo seu próprio pé até ao táxi. Uma velhinha que passava, horrorizada pela faca espetada, ainda disse que chamava uma ambulância, mas ele recusou e entrou táxi dentro. Mas quem sabe? Afinal para morrer basta estar vivo, concluiu. Uma sincope caia-lhe que nem ginjas – pensou enquanto cerrava os dentes. Eduardo aquele pavão armado em corredor e engatatão. Pena não ter sido ele o atravessado pela lança. 
Lisboa. Centro Hospitalar Lisboa Central, vulgo Hospital de São José. Por aqui Eduardo foi bem tratado, mas não perdoou terem-lhe  rasgado o colete de protecção de objectos perfurantes. Mais tarde veio a saber-se que era um colete de forças.....

Arlete no banco traseiro encostou a cabeça e fechou os olhos. Veio-lhe à ideia o ar gazeado de Tempicos, quando se cruzou com ele à saída. Uma duvida assaltou-lhe o pensamento. Será que tinha abusado na dose do chá de cogumelos? Gostava muito de Tempicos e sofria ao vê-lo contar as suas aventuras com aquele ar garboso de garanhão e saber que agora só se ficava pela vontadinha, pois bem tinha ouvido a conversa da Fatinha, enquanto esta lavava a casa de banho. 
-Grande ordinário (grunhia ela) se ao menos os comprimidos lhe dessem para acertar na sanita, mas nem isso e eu que limpe. Aquilo agora nem com o tocar do hino se põe em sentido. 
Salvadorinho já conhecia os efeitos que derivam da toma de chá de cogumelos e disso tentava tirar dividendos com as nossas protagonistas. Imaginem os leitores a Arlete a dançar a conga com o Ruquinha e tocada a chá de cogumelos.

 Salvadorinho havia regressado de uma ida ao Brasil e em modo engatatão, tinha-lhe dado um chá de cogumelos enquanto lhe dizia. 
-Toma isto minha linda e vais ver as estrelas e os passarinhos a cantar. Nada que eu não pudesse fazer caso estejas interessada, mas entretanto vai sentindo a emoção. Pensou logo em fazer uma chávena para o Tempicos, quem sabe não lhe elevava a moral, já que o resto ao que parecia estava em estado de óbito.

E parecia ter dado resultado a julgar pelo ar dele, na manhã seguinte, quando leu a quadra que lhe deixara para ver a reacção. Agora temia que o efeito ainda se prolongasse. Quando voltasse via isso. 
-Chegamos- Disse Ruca em voz grossa, trazendo-a à realidade. 

Arlete entrou no hospital, convenceu o segurança que era a companheira e mãe de 3 filhos menores de Eduardo e lá conseguiu entrar nas urgências. Ao fundo do corredor viu um homem de costas e sentiu um calafrio. Era tal e qual o pobre Pedro que tinha sido atravessado por uma lança e ela tinha encontrado morto nas escadas. Aproximou-se em passos lentos e quando ele se vira, constata que se trata de Eduardo. 
 Eduardo, Eduardo: endireita-me lá esse cano! Que é como quem diz toca a recuperar do que te espetaram nas costas. E lembra-te que tens três filhos menores...

Só naquela hora se deu conta das parecenças que existiam entre os dois. Uma duvida rapidamente a assaltou. Pedro era um bom homem, não se lhe conheciam inimigos, nem nunca tinha visto nada de suspeito nos seus aposentos. Teria sido morto por engano? Quem o matou, tentou desta vez acabar com o verdadeiro alvo?
  
Eduardo sorria-lhe enquanto abria os braços e dizia: 
 -Minha pombinha, sabes que me salvaste a vida? 
-Eu? Mas nem estava junto a ti, quando te atacaram- respondeu Arlete. 
-Mas foste tu com a tua arte da agulha e do dedal que me forraste o blusão do cavalinho, lembras? E segundo o policia que veio aqui falar comigo, aquele forro era nada mais nada menos que kevlar, a fibra com que são feitos os coletes da policia.

Por isso a faca que se enterrou no cabedal do casaco, foi parada pelo forro e tudo não passou de um susto. Arlete lembrou-se dos retalhos que tinha encontrado no balde do lixo do quarto de Pedro, que trabalhava em revestimento de motores de aviões. Achou que ainda estavam em bom estado e tinha-os guardado. Quando Eduardo lhe pediu para dar um jeitinho ao forro do velho blusão, tinha-os usado.
Quem havia de dizer que o Ruca da Bica andava com os passes e os acordes musicais da Conga na cabeça. E queria praticar a dança  

O policia voltou com os papeis para Eduardo assinar. Leu em voz alta. 
-Afirma que não sabe quem o atacou, pois só sentiu um baque nas costas e ouviu uma voz a dizer-lhe que desta vez não escapava, apesar de nunca lhe terem atentado contra a vida. Quando se voltou, quem o atacou desaparecia na esquina e usava um fato e capacete de motoqueiro. Correto? 

Eduardo acenou que sim com a cabeça. Mais uma vez Arlete, teve a sensação que Pedro tinha sido assassinado por engano em vez de Eduardo e ironicamente tinha-lhe mais uma vez salvo a vida. Quem poderia querer Eduardo morto?

Bem vistas as coisas, não faltava quem lhe quisesse fazer a folha. Vejamos: Tempicos tinha sido trocado por ele nos braços e na cama da Fatinha. Salvadorinho tinha dado com eles abraçados na arrecadação da caldeira, pois andavam a encontrar-se às escondidas, mas com promessa de casamento logo que Fatinha fizesse testamento a favor de um dos dois, pois não lhe eram conhecidos herdeiros.
Tempicos afanosamente tentava descobrir quem era o usuário do fato e capacete de motoqueiro....A referencia à fibra tipo "Kevlar" dos coletes da policia prova que a miuda anda a saber umas coisas... (ver 2ª nota de Bancada Directa)

Ameaçou que contava tudo à dona da pensão, para ela saber com quem se tinha metido, enquanto se virava para Arlete e lhe dizia que ela ainda havia de ser dele e só dele. Ainda haviam de dançar o tango juntos com uma faca na liga e uma rosa na boca. Duarte, andava furioso, pois uma inundação tinha-lhe arruinado a estreia e todo o cenário onde tinha investido as suas parcas economias, depois de Eduardo lá ter ido trocar uma torneira que pingava.

Gritou-lhe que só tinha pena de não lhe ter dado com a chave de fendas na cabeça e mandado para um encontro com o criador. Ruca da Bica, não escondia de ninguém a animosidade que sentia de Eduardo. Já tinha feito intrigas à Fatinha, que ele só lhe queria apanhar a pensão. Que biscas daquelas cheirava-os a léguas.

Dr. Aurélio escutou-o um dia a ameaçar Eduardo que lhe dava com a “fruta” no focinho, se os últimos comprimidos azuis não fossem da melhor qualidade. O seu cliente do norte queria material que lhe garantisse a satisfação da Brasileira, pois ouvira uns sussurros nos treinos que todos queriam experimentar a brazuca. Não entendeu ao que se referia, mas que ele estava furioso, ai isso estava e logo ele que costumava ser um homem tão calmo. Hoje tinha visto a forma como se escapou do interrogatório do tal Novena, remetendo explicações para Eduardo.

E o tal Novena, que só tinha visto de relance. Pela pinta mais parecia um trintário e pelo à vontade, muito intimo da dona da pensão. Podia haver coelho naquela lura. Tinham que falar com a policia, para que dessem um novo rumo às investigações.

 Arnes
Trofa.  2013. Dezembro. 16


A autora deste episódio
 1ª nota de Bancada Directa
Quando a miuda estava no activo na Judite era subordinada de Tempicos. 
Quando estavam de piquete e havia uma “saída controlada activa" ela em vez de levar a mala CSI para se obterem impressões digitais e pistas circunstanciais, saía de pistola armada e pronta a entrar em acção. Vestia sempre o colete à prova de bala.
Tempicos à socapa esvaziava-lhe o carregador. Sabe-se lá o que pensam as mulheres.....

2ª Nota de Bancada Directa
A miuda sabe umas coisas....

Kevlar é uma marca registada da DuPont para uma fibra sintética de aramida muito resistente e leve. Trata-se de um polímero resistente ao calor e sete vezes mais resistente que o aço por unidade de peso. O kevlar é usado na fabricação de cintos de segurança, cordas, construções aeronáuticas, velas, coletes à prova de bala, linha de pesca, na fabricação de alguns modelos de raquetes de tênis e  na composição de alguns pneus. Os tanques de combustível dos carros de Fórmula 1 é composto deste material, a fim de evitar que objetos ponteagudos perfurem os tanques no momento da colisão

Esta cultura não estava ao alcance de Tempicos

O Teatro no Bancada Directa com a rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. Hoje recorda-se quem foi Jorge de Sena

 O Teatro no Bancada Directa 
Rubrica de Salvador Santos “No Palco da Saudade”. 
Hoje recorda-se quem foi Jorge de Sena 

No Palco da Saudade 
Texto inédito e integral de Salvador Santos (Teatro Nacional de São João. Porto) 

JORGE DE SENA 
Poeta, ficcionista, dramaturgo e ensaísta, ele foi autor de uma obra marcada sobretudo pela reflexão humanista acerca da liberdade do Homem, iniciada ainda enquanto estudante do Liceu, quando tinha pouco mais de dezassete anos. Influenciado pelo pai, comandante da marinha mercante, ingressou na Escola Naval, mas depressa percebeu que aquele não era o seu mundo. 

A passagem pela Armada, no momento em que se lutava pela liberdade em Espanha, constituiu uma experiência traumática da sua adolescência que seria matéria de diversos poemas e ficções, ao mesmo que o despertou para o processo de fascização que se operava em Portugal. Acabou por se licenciar em Engenharia Civil, trabalhando na Junta Autónoma de Estradas entre 1948 e 1959, ano em que se exilou no Brasil, receando as perseguições políticas resultantes de uma falhada tentativa de golpe de estado, a 11 de Março desse ano, em que esteve envolvido. 
Os anos de Brasil (1959-1965), os primeiros vividos como adulto em liberdade, foram talvez o seu período mais criativo: completou a sequência de poemas sobre obras de arte visual, “Metamorfoses”, escreveu os experimentais “Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena”, as metamorfoses de “Arte de Música” e a novela “O Físico Prodigioso”, iniciou o romance “Sinais de Fogo”, investigou e publicou sobre Luís de Camões e o Maneirismo, trabalhou na edição do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, retomou a escrita para o teatro, etc. 

Após a alteração da situação democrática no Brasil, com o golpe militar de 1964, que fez temer um regresso ao passado, quer em termos políticos quer em termos de dificuldades económicas, Jorge de Sena partiu para os Estados Unidos e abrandou a produção literária, que pouco depois retomaria em pleno. 
Nos Estados Unidos da América, onde integrou o corpo docente da University of Wisconsin (Madison), transitando de seguida para a University of California (Santa Barbara), para além de ter sido membro da Hispanic Society of America, da Modern Languages Association of America e da Renaissance Society of América, Jorge de Sena não restringiu a sua actividade cultural aos círculos académicos e de emigração (no período californiano, desempenhou um importante papel no esclarecimento das comunidades portuguesas sobre o 25 de abril de 1974). 

Paralelamente à sua exigente actividade académica e cívica, ele continuou a enriquecer a sua obra poética e ficcional, ao mesmo tempo que reunia uma enorme e rica correspondência com outros escritores e intelectuais portugueses e brasileiros e efectuava inúmeras viagens de trabalho à Europa, Moçambique e Angola, falando de Camões no IV Centenário de “Os Lusíadas”. 
 A obra de Jorge de Sena, vasta e multifacetada, compreende mais de vinte colectâneas de poesia, uma tragédia em verso, uma dezena de peças de teatro em um ato, mais de trinta contos, uma novela e um romance, e cerca de quarenta volumes dedicados à crítica e ao ensaio, à história e à teoria literária e cultural, ao teatro, ao cinema e às artes plásticas, sem esquecer as traduções de poesia (duas antologias gerais, da Antiguidade Clássica aos Modernismos do século XX, num total de 225 poetas e 985 poemas, e antologias de Kavafis e Emily Dickinson, dois poetas que deu a conhecer a Portugal), as traduções de ficção (Faulkner, Hemingway, Graham Greene, entre 18 autores), de teatro (com destaque para Eugene O’Neill) e de ensaio (Léon Chestov). 

A criação poética de Jorge de Sena foi desde cedo acompanhada por uma intensa actividade intelectual e cultural, como conferencista, como crítico de teatro e de literatura, em diversos jornais e revistas, como comentador de cinema (nas “terças-feiras Clássicas”, no Teatro Tivoli), como director de publicações (com destaque para os Cadernos de Poesia), como coordenador editorial (na revista Mundo Literário), como consultor literário (nas Edições Livros do Brasil ou na Editora Agir), tendo sido ainda cofundador da companhia de teatro Os Companheiros do Páteo das Comédias, em 1948, e colaborador, nesse mesmo ano, de António Pedro, no programa de teatro radiofónico “Romance Policial”, adaptando contos de Chesterton, Hammett, Poe e muitos outros. 
A obra de Jorge de Sena ocupa uma posição singular na literatura nacional e internacional contemporânea, dado o facto de, enquanto mediadora de uma história literária e cultural com que o autor estabeleceu um diálogo existencial e textual, se apresentar simultaneamente como clássica, moderna, socialmente empenhada, confessional e surrealizante. 

Apreciando o conjunto da sua poesia, no final dos anos 1950, o genial poeta António Ramos Rosa observou que o surrealismo e o classicismo nela se defrontam, «numa extrema tensão, para se fundirem […] numa expressão poética de uma grande elegância prosódica, muitas vezes lapidar e finamente musical». Portugal soube honrar em vida este seu ilustre filho, concedendo-lhe diversas homenagens públicas após a Revolução dos Cravos, entre elas a condecoração com a Ordem do Infante D. Henrique. 
 A título póstumo, Jorge de Sena receberia ainda a Grã-Cruz da Ordem de Santiago e Espada, mas a homenagem que decerto mais o comoveria se ainda fosse vivo, aconteceu em 1986, na Gulbenkian/ACARTE, com a estreia de “O Indesejado”, peça escrita em 1945, com Sinde Filipe vestindo a pele de protagonista. 

Salvador Santos
Teatro Nacional de São João. Porto
Porto. 2013. Dezembro. 16

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