BANCADA DIRECTA: Outubro 2011

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” (6). Salvador Santos coordenador da rubrica lembra-nos Luisa Satanela

O Teatro no Bancada Directa.
“No Palco da Saudade” (6)
Salvador Santos coordenador da rubrica lembra-nos Luisa Satanela
No palco da saudade (6)

Coordenação e texto de Salvador Santos


LUÍSA SATANELA

No dia 26 de Agosto de 1895 nascia em Itália, na cidade de Turim, uma menina que foi baptizada com o nome de Paola, mas que viria a dominar a cena teatral portuguesa do princípio do século vinte como… Luísa Satanela. Ela chegou a Lisboa com apenas quatro anos, na companhia da mãe, que era cantora lírica, e dois anos depois aparecia em cena numa ópera do Teatro Nacional de São Carlos elegante e descontraidamente vestida de marinheira, proeza que repetiria com o figurino de princesinha aos nove anos numa outra produção operática.

A sua estreia mais a sério aconteceria, porém, só aos dezasseis anos no espectáculo musical de produção italiana “O Garoto de Nápoles”, onde a mãe era cabeça de cartaz, e que percorreu diversos países da América Latina. O empresário luso Luís Galhardo viu a peça em São Paulo, no Brasil, em 1915, e ficou espantado com a beleza escultural daquela jovem italiana que falava primorosamente português e dançava e cantava como poucas, arrebatando completamente o público brasileiro com o seu notável talento e simpatia esfuziante.
Imediatamente contratada por aquele empresário, Luísa Satanela estreava-se em Lisboa no ano seguinte, ao lado da grande Palmira Bastos e do exímio actor José Ricardo, na opereta “O Reizinho”, que foi sucesso absoluto no Teatro Avenida. A sua arte de representar, aliada a um encanto especial, uns grandes olhos de fogo e um sorriso franco e contagioso, acabariam por fazer perder de amores um dos mais populares actores de sempre: Estevão Amarante, que, ao vê-la no processo de criação da bela Gigi da comédia “O Conde Barão”, em que ele era protagonista absoluto, não resistiu aos seus encantos de mulher e aos seus extraordinários dotes de actriz.

Luísa Satanela e Estevão Amarante acabariam por casar, tornando-se o “casal sensação” da época, e juntos conquistariam o público, produzindo e interpretando espectáculos inesquecíveis, como as comédias “Casta Susana” e “O Sonho da Valsa”; as operetas “Miss Diabo” e “João Ratão”; o vaudeville “Pérola Negra”; e as revistas “Salada Russa” e “Água-Pé”. É nessa altura que surge o bailarino Francis Graça, responsável por uma verdadeira revolução na dança nos palcos da revista, que coreografa grandes “fantasias” para Satanela, realçando ainda mais a elegância e a graça refinada da actriz, como foi o caso na rábula “Alegria das Hortas”.

Atenta à modernidade, Luísa Satanela aposta forte também na inovação da componente plástica dos seus espectáculos, com requintes de bom gosto e arrojo, designadamente na cenografia, onde se detectava influências do expressionismo, do cubismo e até do construtivismo. No domínio dos figurinos, ela própria se encarrega da supervisão dos desenhos do guarda-roupa e entrega a execução dos fatos de “fantasia” a Madame Martin, uma das mais conhecidas modistas da época, que até então nunca tinha trabalhado para teatro. Na verdade, ficou a dever-se a Luísa Satanela a primeira tentativa séria da modernização do teatro de revista entre nós.


Durante vinte anos, a actividade de Satanela foi muito intensa, não só como actriz, cantora e bailarina, mas também como ensaiadora e empresária, quase sempre ao lado de Amarante. Mas, certo dia, Amarante acabaria por “fugir” para o Brasil atrás de outros amores, perdendo temporariamente o teatro português um dos seus mais brilhantes esteios e Satanela o grande amor da sua vida. Desiludida e só, Luísa anunciaria, em Agosto de 1937, o seu abandono dos palcos e rumaria de seguida para o Brasil talvez na esperança de recuperar o companheiro da sua vida. Mas o destino trocou-lhe as voltas: pouco tempo depois de ela partir para terras de Vera Cruz, Amarante retornou a Portugal sem que as suas vidas se recompusessem como casal.

Oito anos depois, absolutamente só, uma verdadeira sombra do que fora, e economicamente em ruínas, Luisa Satanela voltaria a Lisboa e ao palco do Teatro da Trindade para fazer “Topaze”, na Companhia Os Comediantes de Lisboa. Reaparece pouco tempo depois nos palcos da revista para fazer “Vitória”, onde emprestaria de novo a sua elegância e o seu grande poder de comunicação. Voltaria ainda, mais tarde, nas peças “Travessa da Espera”, “Banhos de Sol” e “Passarinho da Ribeira”, a sua última aparição em cena, mas já sem chama nem graça.
O desgosto da morte de Amarante, ocorrida inesperadamente na cidade do Porto onde ensaiava uma nova revista, terá tido também algum peso na decisão de abandonar definitivamente os palcos. Sabendo-a económica e emocionalmente desfeita, o director do ex-SNI, António Ferro, seu admirador e amigo, acabaria por levá-la para o Castelo de Óbidos, como concessionária da Pousada, onde ela fixaria residência até ao fim da sua vida. Luísa Satanela, que foi rainha no teatro, morreria assim como castelã, completamente esquecida, há exactamente trinta e sete anos.

Salvador Santos
Porto. Outubro. 2011. 20

O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro

Desenvolve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

Bancada Directa apresenta-lhe os seus calorosos agradecimentos pela sua disponibilidade em levar a efeito esta rubrica


domingo, 30 de outubro de 2011

Fragmentos e Opiniões sobre a recente Cimeira Europeia. (1) O nosso cronista Luis Pessoa é o autor do texto

Fragmentos e Opiniões

CIMEIRA HISTÓRICA DE 26 DE OUTUBRO DE 2011?

A crónica de Luis Pessoa


Estoiram os foguetes!!!!!!!!!!!!

Saltam as rolhas das garrafas de champanhe que Sarkozy levou, mais a cerveja alemã que a sr.ª Merkel transportou.

Pelo Mundo civilizado, ou seja bem longe dos locais onde os ocidentais fabricam guerras, longe das Líbias, dos Iraques, dos Afeganistões, toda a gente rejubilou!
- Finalmente! – gritou-se a plenos pulmões! – Está encerrada a crise! Os nossos queridos e amados dirigentes encontraram a fórmula mágica de tornear as dificuldades criadas de forma complexa pelos nossos amigos banqueiros e especuladores.



De repente, esqueceu-se que foram os presidentes americanos, Clinton e Bush quem deram as ordens para que certas agências “obrigassem” à sobrevalorização do imobiliário, por forma a criar um mecanismo de crescimento, que terminou com a célebre “bolha” que despoletou a “crise”; de repente, esqueceram-se as especulações de Wall Street que levaram à derrocada do sistema financeiro; de repente, esqueceram-se os ataques do dólar ao euro, na luta pela supremacia; de repente, branquearam-se as fortunas colossais atribuídas em bónus criminosos aos especuladores sem escrúpulos, que conduziram à miséria milhões de pessoas em todo o mundo; de repente, esqueceram-se os incompetentes dos governantes europeus que sem rumo nem objectivo, foram adiando as soluções que deveriam ter sido tomadas a tempo e horas; de repente…

… Todos acordámos de um pesadelo, com os resultados da reunião de 26 de Outubro de 2011, uma reunião histórica e de que resultou, como já referimos, uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma!

CONCLUSÕES? Vejamos:

As principais conclusões foram
1- Os Orçamentos de Estado dos países em incumprimento ou envolvidos em planos de resgate, passarão a ser auditados pelas “troikas”! Ou seja, quando o ministro das finanças vai entregar o orçamento ao parlamento e aos partidos aí representados, para ser discutido, já passou pela “Comissão de Censura” dos nossos tutores para levar um “visto” ou uma nota corrida a lápis azul! Depois volta ao governo, para corrigir as “deficiências” que a “troika” encontrar e só depois vai ao parlamento, para (não) ser discutido pelos deputados nacionais!

2- Na Grécia, por causa do incumprimento e do resgate em curso, a “troika” já está instalada lá, com armas e bagagens, para assegurar que os gregos não alimentam veleidades! A mesma receita dos outros, mas mais em cima! Brevemente será também Portugal a contar com tão ilustre presença a título permanente!

3- Definido o nível máximo de défice e de dívida, em instância de Constituição, tornando-os factores constitucionais, cuja violação é equiparada a abuso constitucional.

Portanto, como é visível, nada de novo, para além de uma vitória da sr.ª Merkel que há muito lutava por impor regras, as suas regras, aos tipos do sul, aos “bronzeados”.
A perda de soberania passa a ser real e a imposição de um protectorado fica cada vez mais próxima, o que não é nada de inesperado. Para a obtenção destes resultados históricos andou a sr.ª Merkel a trabalhar durante quase 2 anos. E aquilo que há 2 anos era denunciado pelas organizações de esquerda europeia e sempre negado, que era a grande vontade hegemónica da Alemanha e da França para se meterem nas contas dos restantes parceiros, aqui está, finalmente! Mais, aqui está e ainda por cima, SAUDADA pelos governos dos países que passam a indigentes e desprovidos de coluna vertebral!


Luis Pessoa

Marinhais. Outubro. 2011. 29

Nota: na pròxima terça continuanos com a 2ª" parte da crónica

sábado, 29 de outubro de 2011

Cronicando à quarta-feira. Uma troca de ideias entre dois amigos sobre possíveis troços de vias rápidas a portajar. (2).

Caro amigo Luis

Continuemos o nosso debate


..........Não gosto de me enfrascar em números. As estatísticas servem para o que servem e muitas vezes não reflectem a realidade. Neste caso englobo todo o fluxo de tráfego que “corre” pelo IC19 nos dois sentidos, complementando-se com a segunda circular, o escoamentonatural daquela via rápida, excluindo a CRIL 17 para eu não arranjar mais justificações. Mas é voz corrente que o conjunto daquelas duas vias tem o maior fluxo de tráfego de toda a Europa.

Conheço bem o IC19 por um saber de experiencia feito: durante vários anos era membro de uma equipa que percorria todo o percurso da via nos dois sentidos 24 sobre 24 horas. A partir das 7 da manhã o trânsito já é caótico e só lá para as duas da madrugada é que ele começa a reduzir-se, e isto só a partir do nó do Alto do Cacém. Sabe-se que a linha do comboio acompanha de muito perto o IC19, havendo só uma grande distância entre alguns núcleos residenciais, como sejam os Moinhos da Funcheira, o Monte Abraão, a Urbanização da Barota, a Quinta da Samaritana em Belas, o Algueirão Velho e o Bairro de São Carlos em Mem Martins. Neste caso do Bairro de São Carlos, porque o IC19 passa encostadinho, será muito mais prático uma pessoa vir de automóvel próprio do que ir apanhar o comboio a 3 quilómetros de distância. E se formos para sul temos a Abrunheira e Linhó nas mesmas condições. Para mim torna-se inqualificável é uma pessoa morar pertinho numa das estações do comboio, trabalhar na zona da baixa até um perímetro que pode ir até Santos, Santa Apolónia e Saldanha e não aproveitar o transporte ferroviário. Aqui sim, vir de comboio é útil e rápido. Económico quanto baste é uma ilusão e em relação a conforto e segurança é o cabo dos trabalhos. Se vier sozinho e se apanhar o comboio no Rossio, a partir das onze / meia noite, tenha a certeza que se não for na zona da Damaia, se não for na zona do Cacém/Rinchoa, será na zona da Tapada das Mercês que pode constatar que teve um assalto, quer seja pelo método de três quatro indivíduos e canivete nas costas, quer pelo método de “arrastão”, mais organizado, porque pelo menos 6 dos comparsas encostam-se às portas para impedir que um mais ousado accione a alavanca de alarme. Se o meu amigo quer confirmar clique aqui

Deixemo-nos de retórica e vamos lá a concordar com as opiniões do amigo Luís. Claro que concordo que muitos automobilistas servem-se do IC19 apenas por comodismo e aburguesamento. Calculemos que ande na ordem dos 60% estes condutores. Mas repare amigo Luís que os restantes 40% são pessoas que não têm hipóteses de vir de comboio e que os incontáveis veículos de trabalho/carga, seriam prejudicados com a hipótese do IC19 ser portajado. Todos os condutores integrados nestes 40% sentiriam na pele tamanha decisão.

Em relação ao troço da A2 entre Almada e o Fogueteiro também posso dar a estimativa de 60% para os tais condutores comodistas. Mas então haveria a mesma situação para os restantes 40%.

Aliás este troço entre Almada e o Fogueteiro sofre actualmente de uma grave incorrecção: é que se entra ou se sai na A2 em Almada e só se sai ou se entra no Fogueteiro.



O que os autarcas da Margem Sul pretendem (Almada, Seixal e Barreiro) e é muito justo, é que este troço seja uma central de distribuição de todo o fluxo rodoviário, para se ter um acesso rápido a varias localidades (Corroios, Cruz de Pau, Vale de Milhaços, Quinta da Aniza, Quinta do Brasileiro, Belverde e Aroeira, Foros de Amora, Charneca, Sobreda, Quinta do Rouxinol. Miratejo e Feijó.). Ora isto implica que se abram mais nós de acesso para a A2, pelo menos mais dois.

Fico-me por aqui. Creia-me com amizade.

Adriano Rui Ribeiro




Os meus flops (30). Bem prega Frei Tomás


Ninguém está imune dos sacrifícios que neste momento são pedidos a Portugal para conseguir cumprir os compromissos que assumiu com entidades internacionais”.

Assim falou Cavaco Silva.

Mas, entretanto, "leva duas equipas de futebol ao Paraguai".

Há muita gente que julga que não desconta nada quando ganha poucochinho. Confira a realidade

Nos programas de televisão e de rádio de opinião dos espectadores e ouvintes, é constante a pergunta sobre estas reduções nos subsidios de Férias e de Natal para quem ganhe menos de mil euros. Muita gente desconhece a realidade.

Bancada Directa dá-lhe uma ajuda e "caia na real"

Saiba quanto vai perder no subsídio de Férias e Natal (quem ganha menos de mil euros)

Conforme anunciou o primeiro-ministro recentemente, quem ganhe mais de mil euros irá ficar sem os 13º e o 14º meses, mas aqueles que ganhem entre 495 euros e mil euros (valores brutos) também irão ser afectados, de forma progressiva.


Os meus flops (29). Isto lembra-me outra "estória": que estão a tentar fazer esquecer.




Convite aos nossos leitores. Bancada Directa vai estar presente. É segunda-feira

Os meus flops (28). Amigos leitores: tirem-me desta confusão...

Francamente
Benfiquistas clarividentes é o que são
Vender as febras de porco a Deus e ao Diabo

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Mafra. A cultura ao alcance das crianças, se os paizinhos quiserem...

Aveiro e o seu desporto



Mini Basquet




De pequenino se torce o pepino. Se tens jeito a "geração Benfica" espera-te

Pronto! Está satisfeito o pedido de amigos

Que apareçam craques jeitosos.

Fragmentos e Opiniões sobre a confiança que nos merece a moeda Euro e uma verdadeira coesão nesta União Europeia a dar sinais de crise

Fragmentos e Opiniões sobre a confiança que nos merece a moeda Euro e uma verdadeira coesão nesta União Europeia a dar sinais de crise

O falso resgate do Euro

A crónica de Stephan Kaufmann do Berliner Zeitung de Berlim

Os políticos europeus gostariam de celebrar as decisões da cimeira de 26 de Outubro como um marco histórico. Mas a crise do euro acompanhar-nos-á ainda por mais uns tempos. Porque o paradoxo fundamental – o de querer comprar a confiança dos investidores com dinheiro que não têm – não pode facilmente ser escamoteado.

Quem se tenha afeiçoado à crise do euro tem pouco com que se preocupar: ela vai ficar por cá por mais uns tempos. Nem as decisões da última cimeira europeia a vão afastar. Por um lado, estão correctos os que culpam os políticos pela crise. Por outro, fogem à compreensão de que os políticos estão a braços com uma contradição gigantesca do mundo real, que brota da lógica do próprio sistema e não pode ser facilmente banida.



O ponto de partida é a constatação de que os Estados da zona euro estão a braços com um endividamento excessivo. Esse é o veredicto transmitido pelos Estados credores e pelos mercados financeiros, de acordo com os seus invariáveis critérios de investimento: segurança e rendimento.

Os Estados têm pedido muitos empréstimos: mas pode-se sempre apreciar a situação por outro ângulo e dizer que os mercados financeiros é que emprestaram de mais. O que permite aliviar a culpa pela presente desgraça de cima dos investidores e apontar o problema subjacente: as dívidas dos Estados são os activos de bancos, seguradoras e fundos.

A riqueza financeira do mundo consiste em grande medida nas promessas de pagamento dos governos, e é a validade dessas promessas que agora está em causa. Isto significa que os mercados financeiros arrecadaram demasiada dívida pública. Em suma, têm demasiado capital nas mãos – muito mais do que são capazes de transformar em dinheiro que possam gastar.

Opção nuclear
Tais situações são comuns no capitalismo. A indústria também produz regularmente mercadorias que não consegue vender. A solução para este problema continua a ser a mesma: a depreciação dos produtos, o que leva bens e fábricas a serem vendidos ou destruídos.

Porém, na crise actual, é precisamente esse tipo de desvalorização que deve ser evitado. Uma redução de capital financeiro em grande escala atiraria – é um risco – Estados e bancos para o abismo. "Contágio" é o nome da ameaça que paira sobre nós, enquanto os mercados financeiros estiverem assustados.

Para acalmar os mercados, os políticos avançam em passo acelerado para outra solução. Por um lado, fomentam programas radicais de austeridade, para recuperar os países para esferas de investimento viável e para restaurar a solidez da montanha de dívida nacional acumulada.

Estão a fazer isso para garantir aos credores em dúvida que os seus investimentos estão garantidos – ainda que os fiadores sejam precisamente aqueles cuja qualidade de crédito está a ser posta em dúvida. E assim, com o dinheiro que não têm, os governos pretendem resgatar Estados, apoiar os bancos e comprar a confiança perdida na sua solidez financeira.

Esta contradição há meses que dura. A crise de confiança está a transformar-se num círculo vicioso que talvez só pudesse ser quebrado a curto prazo se o Banco Central Europeu avançasse como fiador. Porque só o BCE pode, em teoria, reunir montantes ilimitados. A recusa da Alemanha, em particular, em atribuir ao BCE essa função resulta da esperança de que a crise ainda possa ser controlada sem recurso a uma tal "opção nuclear".

Zona euro não está fora de perigo
E assim, cortes de despesa, perdão da dívida à Grécia, aumento das reservas de capital dos bancos e um maior FEEF são intervenções que se supõe instilar confiança na capacidade de crédito da Europa. Se isso vai resultar, é duvidoso. É provável que cada uma dessas medidas aumente ainda a desconfiança.

Porque, com o corte da dívida, os políticos evidenciam estar a rever a sua posição anterior de que os programas radicais de austeridade estariam mesmo a funcionar. A recapitalização dos bancos contradiz a garantia anterior de que o sistema bancário tinha robustez suficiente. Ao autorizar o FEEF a apoiar os bancos, estão a abandonar a afirmação de que a tal recapitalização seria suficiente para os proteger contra a crise.

Ao aumentar o FEEF, estão a demolir o seu veredicto de que a crise era apenas um problema de alguns pequenos Estados que não souberam manter a tesouraria em ordem. Alavancando o FEEF para montantes cada vez maiores, na casa dos milhares de milhões, estão a refutar a sua tese de que a zona euro está fora de perigo.

E com a disputa em curso sobre o preço do resgate do euro, com as preocupações em relação às obrigações europeias (eurobonds) e a obstrução a qualquer envolvimento mais amplo do BCE, com severas restrições de medidas de emergência – em suma, com as constantemente salientadas condições de combate à bancarrota, contradizem a sua própria afirmação de estar a fazer o máximo possível para salvar o euro.




Stephan Kaufmann

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Fragmentos e Opiniões. Será a Nato uma força de paz? O nosso cronista “Olho Vivo e Pé Ligeiro” questiona :bombardeia-se em nome da paz?

Fragmentos e Opiniões debaixo de fogo.
Será a Nato uma força de paz?
O nosso cronista “Olho Vivo e Pé Ligeiro” questiona
Bombardeia-se em nome da paz?

Deus quer, o homem sonha e a NATO bombardeia. E assim vai o mundo…

"Olho Vivo e Pé Ligeiro" autor do texto








Ainda há pouco tempo eram muito amigos. O Kadafi andava aos abraços ao Tony Blair e o petróleo e o gaz natural serviam a Europa. A Europa e a Nato, acharam que afinal Kadafi não era assim tão mau. Mas, entretanto, as coisas mudaram. A senhora Clinton – quem diria – já achava bem que o senhor da Líbia fosse afastado vivo ou morto.

Obama não achou mal e assim a França e a Itália – em nome da paz – e com um mandado da Nato, resolveram ir proteger os líbios – coitadinhos – que há cerca de 40 anos sofriam muito.

Como no País não havia senão tribos arranjar um palhaço do tipo do que está à frente do Afeganistão, não é fácil. E assim, se foi bombardear (selectivamente, pois as bombas inteligentes só atingem os maus da fita e que eram amigos do Kadafi) a população da Líbia.

Eu costumo dizer que – bendito o país que não tenha petróleo – pois senão arrisca-se a ser bombardeado - para protecção dos indígenas. E, meus caros, por mais voltas que se dê a Democracia é isto. É o domínio do mais forte tendo o mais fraco o direito a votar.
E é bom que o faça convencido que o fez de sua livre escolha. Assim não parece uma palhaçada e o pobre do votante até agradece.
Vejam o que aconteceu no Afeganistão. Após a guerra e a destruição do País arranjou-se umas eleições e um palhaço. Vestiu-se o homem com um bivaque e uma manta tipo alentejana. Levou-se uma parte da população a votar nele. Fez-se a campanha a favor .O Marketing tem muita força!

Com a batota nas eleições quanto basta (Nem eram preciso) e aí está o palhaço Karsai vestido a rigor e a pensar que manda no País. E mais – ganhou democraticamente as eleições. Foi canja!

Vamos ver o que vai suceder àquele País quando o pessoal de fora se vier embora. Lá vão eles entrar na batatada. E não admira pois o que foi lá feito não tem pés para andar.

Mas hoje, já não é bem assim e amanhã e depois de amanhã será pior. Todos sabemos quanto o leader mundial está a perder importância em África, no médio Oriente na Ásia e na América latina. Se isso será bom ou mau para o mundo estaremos cá para ver. Nós limitamo-nos a tentar fazer uma “leitura” do que se está a passar na terra.

Estamos a assistir na Europa à queda desta e da sua importância que já teve no mundo. Houve na Europa uma grande evolução no bem-estar das suas populações desde a II Guerra. Hoje, o capitalismo selvagem e liberal está a dar cabo das conquistas feitas em favor das pessoas.

Penso eu que esta forma de capitalismo não vai ter futuro. Ou o pessoal que tem o dinheiro reparte um pouco com o resto das pessoas ou arrisca-se a que os pobres se aborreçam e corram com eles. Eu sei que muita gente vota neles convencido que são os melhores. Com o tempo vão aprendendo que não é assim e no dia em que aprendam, mandam-nos à vida.

É a errar que se vai aprendendo.

Um abraço do vosso amigo "Olho Vivo e Pé Ligeiro"

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Cronicando à quarta-feira. Uma troca de ideias entre dois amigos sobre possíveis troços de vias rápidas a portajar. Com o demo do Salazar a espreitar

Cronicando à quarta-feira. Uma troca de ideias entre dois amigos sobre possíveis troços de vias rápidas a portajar. Com o demo do Salazar a espreitar este debate.

Caro amigo Luís
Sabendo o meu caríssimo amigo que vou dividir esta nossa troca de ideias em 3 pontos, comecemos pelo aspecto comportamental negativo que norteia as nossas lusitanas gentes.

Respigo a sua ideia de que
“O problema é que se optou pelo novo riquismo de se considerar que ter um pópó é que é fino e que ter um desses objectos poluentes é um direito! E contra isso não há nada a fazer!”

Claro que se para alguns ter um automóvel à porta é um novo riquismo e se é uma verdade absoluta, também temos de considerar que qualquer pessoa activa (que tenha uma actividade normal para sobreviver a si e à sua família), com o frenesim de vida diária que grassa nos nossos tempos, não ter um meio de transporte próprio é estar desajustado com a realidade. Concordo com o meu amigo de que há muitas pessoas que utilizam diariamente o seu automóvel em regime individual, não cuidando de que seria muito mais económico se o mesmo fosse posto à disposição da família num colectivo de utilização. E, francamente, reconheço que no IC19 os exemplos proliferam. Mas a condição humana é mesmo assim.

O meu caríssimo amigo tece este conceito: num país miserável, de pessoas que vivem em condições deploráveis, quem não tem um carro? A verdade tem que ser dita: um carro é um objecto de ricos, que consome mais recursos que um filho, que é absolutamente inviável e improdutivo, pelo que apenas deveria ser usado em último recurso e como objecto de luxo que é, deve ser taxado como tal, pelo menos nos locais onde há alternativas….

Vamos lá ver. O sistema de vida actual para um casal de extracto médio consiste em cada membro ter um automóvel próprio, ter casa própria e no caso de haver filhos, há logo a preocupação de eles obterem a licença de conduzir aos 18 anos. E de imediato tem de se comprar um popó para o menino ou menina. Claro que esta filosofia de vida tornou-se inviável economicamente na generalidade das famílias. Surge o endividamento, assegura-se mais um crédito para pagar as dívidas já existentes e o total do endividamento cresce como uma bola de neve. Mas todas estas verdades não invalidam que muitas pessoas precisam do seu automóvel como de pão para a boca.

São os tempos actuais. E como era dantes?
Vamos recuar ao tempo da Ditadura que assolou este país quarenta e oito anos. Já nesse período de tempo António Oliveira Salazar definia desta maneira a generalidade do povo português: "O português é eivado de individualismo e toda a regulamentação da sua actividade privada lhe é molesta. Penso que tem de refazer neste ponto a sua educação e que o seu modo de ser não se ajusta às necessidades dos tempos." In Discursos de AOS em 1949

"Para a formação da consciência pública, para a criação de determinado ambiente, dada a ausência de espírito crítico ou a dificuldade de averiguação individual, a aparência vale a realidade, ou seja: a aparência é uma realidade política"

1960. Salazar de férias com Christine Garnier

As citações de Salazar vem a propósito de acentuar que as características de individualismo e egocentrismo dos portugueses não é só dos tempos actuais mas que já vem de muito longe. Salazar sabia das fraquezas comportamentais deste povo, da sua pouca cultura, da sua iliteracia e aproveita-se para o dominar e fazer da sua vida uma autêntica escravatura. A máquina de repressão salazarista actuava com eficiência e para o ditador nunca lhe interessou que este povo evoluísse culturalmente e tivesse consciência dos seus direitos cívicos.

Ora isto só quer dizer ao meu amigo que este comportamento individualista deste povo já não é de agora mas já vem de longe. Mas provocado por terceiros. E contra este mal, batatas.
Veio o 25 de Abril e houve um tempo de felicidade colectiva.
Quem não aprecia a liberdade? Viva a democracia!
Porém, depressa se viu que as santas e amplas liberdades seriam quase um exclusivo para alguns desgovernantes, que se enriqueceram, se aliaram aos economicamente poderosos e empobreceram o país.
A Nação carece de justiça, escasseia em segurança, desconhece o equilíbrio social, sente-se deprimida perante a incompetência e os abusos de quem tem detido o poder.

Os sentimentos de liberdade depressa deram em abusos das mais variadas formas, onde a falta de respeito pelo seu semelhante era uma das piores situações. Alastrava o conceito de que a minha liberdade só era efectiva se não prejudicasse a liberdade dos outros, Mas depressa caiu em saco roto.

O povo convenceu-se de que isto passaria a ser um Éden de maravilhas. Aburguesou-se com as liberdades e mais algum dinheiro nos vencimentos. Com a entrada na EU em 1986 convenceu-se de que era rico e endividou-se. A corrupção alastrou como os tentáculos de um polvo. Os políticos marimbaram-se para o que o povo esperava deles e cada um começou a governar-se da forma mais habilidosa. O povo em vez de reprovar estes comportamentos dos corruptos ainda os venerava a aprovava as suas habilidades. Era um fartar vilanagem. Começou a tomar efeitos de verdade absoluta a geração “casa dos pais”.

A Finlândia recentemente para aprovar o empréstimo a Portugal hesitou bastante, mas não se coibiu de afirmar o que o povo português queria era praia e sol e trabalhar nickles.
Falarei a seguir das especificidades do IC19. É que o IC19 não existe só para as gentes que vivem nos grandes centros urbanos da Linha de Sintra. (Amadora, Queluz, Massamá, Cacém, Rio de Mouro, Tapada, Algueirão e Mem Martins). Serve toda uma comunidade envolvente que vai muito além do seu eixo de percurso. Para Sul vai até Leceia, Aboboda, Trajouce, Albarraque, Linhó etc. Para Norte é impressionante o tráfego que vindo da IC19 se dirige para a zona da Várzea de Sintra, Colares, Fontanelas, Zona do Magoito, São João das Lampas, Assafora, Terrugem até Santa Susana. E no outro eixo viário temos Pêro Pinheiro e Montelavar

Por hoje fico-me por aqui. Logo que possa continuarei o tema

Creia-me com amizade

Adriano Rui Ribeiro

Sintra. 2011. Outubro.25

Os meus flops (26). Sim senhor, agora temos um Governo de direita a sério e que se assume como tal.

Os meus flops (26). Sim senhor, agora temos um Governo de direita a sério e que se assume como tal.

Finalmente a direita a sério

À falta de qualquer outro mérito, o governo de direita de Pedro Passos Coelho tem o de acabar com alguma podridão ideológica em que o país tem vivido, com a direita armada em esquerda, a esquerda acusada de ser direita e a extrema-esquerda com ares de poder governar o capitalismo. Se as eleições mostraram a inutilidade da esquerda conservadora na hora de governar o país, tendo mesmo chegado ao ponto de fazer de vanguarda da direita na luta desta por chegar ao poder, pela primeira vez um governo de direita governa sem complexos de esquerda. Para que tudo parecesse perfeito só faltaria o PSD deixar uma designação que o transforma em travesti ideológico e adoptar uma designação compatível com os seus princípios, por exemplo, partido conservador ou aliança popular. Quando um Governo pratica uma politica que sacrifica os pobres e beneficia, pela omissão, os ricos, quando um ministro da Educação protege o ensino privado ao subsidiar turmas com uma dúzia de alunos, talvez mais um ou dois no máximo, e exige que no ensino publico as turmas tenham trinta alunos, quando um ministro da Saúde dá a entender que não é adepto convicto do SNS, quando um ministro dos Assuntos Sociais que faz da caridadezinha a sua bandeira, quando um ministro da Economia, para além de ainda não ter mostrado trabalho, mas é avesso a uma intervenção do Estado na Economia, não será preciso dizer mais nada, pois estamos em presença de um Governo de direita.
Os portugueses têm assim a feliz oportunidade de conhecer um Governo puro de direita, e não caiam na tentação de criar tumultos quando se manifestarem, pois para os reprimir não haverá mão leve.

Os Governos do PSD, quer de Sá Carneiro, quer de Durão Barroso, quer de Pinto Balsemão ou até mesmo do Santana Lopes, nunca foram de forma tão clara contra o SNS, a Escola Publica e contra os funcionários públicos. Estes políticos nunca praticaram uma política de direita com tanta visibilidade processual.

Vamos a ver até quando…..

Os desalinhados Bancada Directa. Pior a emenda que o soneto. Miguel Macedo: um ministro fragilizado……

Os desalinhados Bancada Directa. Pior a emenda que o soneto. Miguel Macedo: um ministro fragilizado……

Depois de vinda a lume a verdade insólita do subsídio de alojamento em Algés, Miguel Macedo dificilmente sairia da situação sem custos.

Poderia ter minimizado os estragos, se tivesse optado por uma saída airosa que até estava mesmo à vista: bastaria que, logo que o assunto veio à baila, tivesse prontamente renunciado ao subsídio.

Depois de afirmar que não prescindia do mesmo, veio depois anunciar a renúncia em continuar na receber o dito subsidio de alojamento, fazendo-o em termos que já vi qualificar como sendo pior a emenda que o soneto. Claro dar o dito por não dito, aliás, dizer que estava tudo bem e depois cair na real, deixa-o claramente fragilizado. Digo isto mesmo considerando que, muito provavelmente, a sua renúncia, nesta altura, não foi mais que uma forma de cobrir a responsabilidade de Passos Coelho na concessão do subsídio.

Ainda assim, não me admiraria que Miguel Macedo se tenha transformado num ministro a prazo. Num Ministério tão sensível como é o da Administração Interna, onde não faltam problemas, com as forças de segurança a prepararem acções de protesto nas ruas, não é ele a pessoa indicada para os resolver. E não é, porque, a partir de agora, atenta a natureza dalguns problemas que têm a ver com remunerações e subsídios a que as forças de segurança se sentem com direito, falta-lhe, além do mais, autoridade moral, melhor dizendo que houve uma falta de ética da sua parte.
E não nos podermos esquecer da sua arrogância, enquanto líder do Grupo Parlamentar do PSD, quando apregoava e apostrofava a imoralidade dos outros.

A nossa vida tal como ela é nos dias de hoje. Objectivo: perder peso e há especialistas na matéria....

Francamente





Agradecimento à minha doutora.

Palavras para quê? É um verdadeiro artista português e cambalhotas é só com êle! Diz e contradiz depois



Francamente

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” (5). Neste palco apresentamos Laura Alves. Coordenação de Salvador Santos, também autor do texto.




Laura Alves, de seu nome completo Laura Alves Magno, nasceu em Lisboa (Rua de São Bento nº 638) no ano de 1927 a 8 de Setembro e faleceu na mesma cidade em 6 de Maio de 1986

O Teatro no Bancada Directa. “No Palco da Saudade” (5). Neste palco apresentamos Laura Alves. Uma rubrica coordenada por Salvador Santos, também autor do texto (original)

No Palco da Saudade (5)



Texto integral de Salvador Santos

LAURA ALVES

Filha de gente muito humilde, começou a trabalhar bem cedo, para ajudar os pais nas despesas da casa, aquela que viria a ser uma das mais carismáticas e populares actrizes portuguesas do século vinte: Laura Alves. Na revista à portuguesa ela foi “apenas” grande, mas no teatro de boulevard e de vaudeville, na opereta e na alta comédia, foi indiscutivelmente uma das maiores da sua geração. Recordá-la em breves linhas não é tarefa fácil, já que foram inúmeros os êxitos e os momentos de glória que viveu ao longo de cinquenta e seis anos de uma brilhante carreira, iniciada com o espectáculo “As Duas Garotas de Paris” na Companhia do actor Alves da Cunha

Laura Alves pisou o palco pela primeira vez com catorze anos e aos dezoito era já primeira figura, mas foi na opereta “1900” que revelou o seu grande talento de comediante, muito devido a uma enorme capacidade de improviso, versatilidade interpretativa e piada fácil. Seguiram-se as revistas “Margarida vai à Fonte” e “Tá Bem ou não Tá” ao lado do extraordinário João Villaret e a opereta “Zé do Telhado” com o grande Estêvão Amarante. Com as suas performances nestas produções, a actriz conquistou definitivamente a critica da época (década de 1940) e atingiu rapidamente uma popularidade que viria a manter até ao final da sua vida.
A sua figura pequena mas elegante, o rosto claro e redondo, os olhos muito vivos e expressivos, e o seu estilo de representação caracterizado por um ritmo prodigioso e por vezes endiabrado que imprimia às suas “falas”, eram muito do agrado de “um público” que enchia os Teatros só para a ver, mesmo nos locais mais recônditos do país (que ela percorreu de lés a lés, sempre com estada alargada na cidade Porto – no velhinho Sá da Bandeira). Na realidade, Laura Alves era aquilo a que se costuma chamar um “bicho do palco”, uma vedeta, uma actriz com uma espantosa intuição, que sabia da sua arte como poucos. Ficou célebre o conselho que dava aos jovens actores que debutavam nos seus espectáculos, sempre que denotavam algum nervosismo: «Ó filho, fala alto e não deixes cair os finais que já vais bem!»

Laura tinha uma técnica notável e uma rara cumplicidade com o público, por quem nutria um enorme respeito. Não defraudar as expectativas do “seu público”, era uma das suas maiores preocupações. Se os textos não eram suficientemente cómicos, ela acrescentava “falas” de sua lavra, quase sempre inspiradas em situações do seu quotidiano, sem nunca sair do contexto das peças. Dizia-se com graça que nos espectáculos em que participava não podia faltar um telefone em cena. São memoráveis os telefonemas que a actriz fazia de improviso, longos e divertidos (e sempre muito sentidos!) monólogos, onde aproveitava para lançar farpas aos poderes instituídos ou “queixar-se” dos devaneios sentimentais de seu marido, Vasco Morgado

Teatro Monumental. Ano de 1965. Uma notavel peça: "O Comprador de Horas". Laura Alves, Paulo Renato e Rui de Carvalho foram as figuras principais de um grande elenco, onde sobressaíam Nicolau Breyner e Henrique Viana.

O Teatro Monumental, que aquele empresário dirigiu desde a sua inauguração, em 1951, foi o palco por excelência de Laura Alves, a sua segunda casa. Foi naquele Teatro que representou algumas das suas maiores criações. De uma interminável lista de peças, podemos retirar do arquivo da nossa memória “As Três Valsas”, “Boa Noite Betina” e “Margarida da Rua”, que constituíram sucessos inesquecíveis. Mas há muito mais. Com Ruy de Carvalho, Paulo Renato, Artur Semedo ou Nicolau Breyner, ela esgotou lotações atrás de lotações em diversas comédias. “O Comprador de Horas”, “A Flor do Cacto”, “O Meu Amor é Traiçoeiro” ou “A Menina Alice e o Inspector”, são apenas algumas das muitas produções que estiveram mais de um ano em cartaz.

Foi ali, no Monumental, que a grande actriz viveu alguns dos momentos mais brilhantes da sua carreira e onde teve oportunidade de exibir o seu multifacetado talento. Mas foi também naquele Teatro que Laura sacrificou tudo em nome do homem que sempre amou, mesmo após o divórcio e até a sua morte: Vasco Morgado, a quem esteve sempre ligada, como actriz e como mulher. Para o salvar do descalabro financeiro em que muitas das suas produções o arrastavam, ela tudo sacrificou. Os seus bens materiais e, sobretudo, a sua maior riqueza: os seus dotes de actriz, sujeitando-se muitas vezes, e sem queixas, a projectos de qualidade inferior às suas exigências artísticas, mas que ela sabia serem êxitos de bilheteira garantidos.
Teatro Variedades. Ano de 1954. "Mulheres há Muitas". Laura Alves e Vasco Santana foram os actores principais. Nos papeis secundários tivemos Costinha, Hortense Luz, Camilo de Oliveira, Maria Helena Matos, Henrique Santana, Aida Baptista e Rui de Mascarenhas.

Quando a morte a encontrou, em 6 de Maio de 1986, já Laura Alves tinha perdido tudo. E tudo para a grande actriz era o público, Vasco Morgado e o seu Teatro… o Teatro Monumental. Quando estes lhe faltaram, Laura Alves perdeu o sentido da vida, fechou-se em casa e rejeitou o Mundo. A doença foi-a minando, deixando-a cansada, muitas vezes irritada consigo própria e com todos os amigos que a rodeavam, tornando-se por vezes quase insuportável. Mas mesmo assim, e apesar de tudo, ia resistindo. Só não teve forças para suportar o afastamento do público e a destruição do seu Monumental.

Salvador Santos
Porto. 2011. Outubro. 22




O autor desta rubrica é um homem do Teatro, conhecedor profundo das suas envolventes artísticas e administrativas. Em Portugal poucos haverão que possuam os seus conhecimentos sobre o Teatro, Neste caso concreto o Salvador conviveu de muito perto com Laura Alves.

Desenvolve a sua actividade profissional no Teatro Nacional de São João no Porto

Bancada Directa apresenta-lhe os seus calorosos agradecimentos pela sua disponibilidade em levar a efeito esta rubrica

Obrigado Pela Sua Visita !